sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Bresser e a "americanização" da política

Do artigo de Luiz Carlos Bresser Pereira, "Dois MalesDois afinal evitados”, que trata das eleições presidenciais de 31 de outubro de 2010:

É verdade que os dois principais candidatos não conseguiram desenvolver um debate que oferecesse alternativas programáticas e ideológicas claras aos eleitores. Por isso, a grande maioria dos analistas os criticou. Creio que se equivocaram. (...)

Os dois males que de fato rondaram as eleições de 31 de outubro foram os males do udenismo moralista e potencialmente golpista e o da americanização do debate político.
Quando setores da sociedade e militantes partidários afirmaram que a candidata eleita representava uma ameaça para a democracia, para a Constituição e para a moralidade pública, estavam retomando uma prática política que caracterizou a UDN (União Democrática Nacional), o partido político moralista e golpista que derrubou Getulio Vargas em 1954.

Não há nada mais antipolítico ou antidemocrático do que esse tipo de argumento e de prática. As três acusações são gravíssimas; se fossem verdadeiras -e seus proponentes sempre acham que são- justificam o golpe de Estado preventivo. Felizmente a sociedade brasileira teve maturidade e rejeitou esse tipo de argumento.

Quanto ao mal da americanização da política, entendo por isso a mistura de religião com política em um país moderno. Os Estados Unidos, que no final da Segunda Guerra Mundial eram o exemplo de democracia para todo mundo, experimentaram desde então decadência política e social que teve como uma de suas características a invasão da política por temas de base religiosa como a condenação do aborto.
De repente um candidato passa a ser amigo de Deus ou do diabo, dependendo de ser ele "a favor da vida" ou não. A separação entre a política e a religião -a secularização da política- foi um grande avanço democrático do século 19. Voltarmos a uni-las, um grande atraso, a volta à intolerância.

A meu ver, o comentário peca por excesso de baba-ovismo.

1. "UDN, o partido político moralista e golpista que derrubou Getulio Vargas em 1954."

A UDN não derrubou Getúlio em 1954. Por mais que tenha sido ruidosa e intensa a campanha diária contra Vargas (mas direito natural de toda oposição em um país democrático), NÃO TERIA ACONTECIDO NADA se Getúlio não se adiantasse e mandasse matar Lacerda (acabou matando outro, e ferindo o jornalista).
Getúlio não foi derrubado. Ele mesmo se derrubou, e o desfecho do suicídio foi apenas uma sequência do mal que ele mesmo criou.

Atualmente, a historiografia avalia que os movimentos de Getúlio na esfera do governo em 1945, quando já corria plenamente a sua sucessão, mostram que ele preparava um golpe para se eternizar no poder. Getúlio é que foi um golpista.

2. "Os Estados Unidos que (...) eram o exemplo de democracia para todo mundo, experimentaram desde então decadência política e social que teve como uma de suas características a invasão da política por temas de base religiosa como a condenação do aborto."

Pois bem, de 1945 o que vimos não foi a condenação do aborto, mas sim a sua aprovação por meio, não de um debate eleitoral ou da decisão dos partidos via Congresso (que não tem incumbência para isso, mas tem mais representatividade), mas de uma decisão da Suprema Corte (Roe x Wade, 1973), seguindo um critério desprovido de considerações éticas sobre o direito à vida.
Onde está a "invasão religiosa"?

É claro que o nível do debate político subiu um pouco com a inclusão de temas morais. Eles representam a inclusão na esfera de decisões políticas de uma parcela do eleitorado que se mantinha calada sobre assuntos caros ao seu ponto de vista. Isso é democracia.

Espera-se que a presidente seja fiel a seus compromissos assumidos em campanha da mesma forma com que se compromete com a defesa da democracia e da liberdade de imprensa.

sábado, 15 de janeiro de 2011

New Age em favor da dengue

2011 começa com mais uma etapa da história infame do pseudo-ecologismo (fonte: Jorge Alcalde, da revista Quo).

No final do ano passado, as autoridades da Malásia anunciaram a suspensão de um programa de controle da epidemia da dengue (doença que afeta de 50 a 100 milhões de pessoas em todo o mundo) que utilizava como arma a liberação na natureza de exemplares machos do Aedes Aegypti geneticamente modificados, altamente atrativos para as fêmeas, mas cujos descendentes são incapazes de se reproduzir.

A utilização dessa técnica não é nova, e já foi utilizada com sucesso para reduzir drasticamente a população de pragas nocivas à agricultura nos Estados Unidos e no México. Porém, quando se tentou usar a mesma modificação para se frear o avanço da dengue na Malásia, grupos internacionais de ecologistas e consumidores alegaram a possibilidade de meios “mais holísticos” para se controlar a epidemia. 
A mesma pressão deve acontecer diante de outras nações que também pesquisam armas genéticas contra a dengue.

Estes grupos (muito distantes da realidade do sudeste da Ásia, e virtualmente a salvo de qualquer contato com a dengue) asseguram que outros meios, mais lentos e mais caros (como a interminável fiscalização das águas paradas), trazem resultados mais seguros, apesar de nada disso ter impedido o alastramento da doença por todo o mundo.

Enquanto isso, o sofrimento e as mortes provocadas pela dengue não se mostram suficientemente “holísticos” para sensibilizar os salvadores do planeta.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Dilma Medvedev

A mídia baba-ovo vem passou os últimos meses amamentando a opinião pública com o ineditismo de assumir a "primeira mulher presidente" na história do Brasil. (Para frisar o demagogismo, até desenterraram o termo 'presidenta', para entusiasmar as 'clientas').

Pois bem, detesto decepcionar, mas... Dilma é homem.

Calma, sigo apenas o raciocínio velhaco do núcleo feminino do PT toda vez que alguma prefeita era eleita em alguma grota do interiorzão na cola do poderio do marido, quando ainda não existia a reeleição.
Aí, diziam que todas aquelas esposas, filhas, irmãs, cunhadas ou até mães daqueles prefeitos não representavam a "causa" da mulher, que não tinham "histórico de luta", e que chegaram àquelas posições no reboque de poder dos verdadeiros detentores do poder.

Elas tinham plena razão.
E isso vale perfeitíssimo para a diletante Medvedev.
Há um homem por trás de tudo, vocês sabem quem são, e vai continuar sendo ele a colher louros e vaias para qualquer coisa que venha a acontecer daqui para frente.

Ah, histórico de luta é eufemismo para exigência de carteirinha. O núcleo velhaco não tem aval para exigir de qualquer quem seja o compromisso de vinculação ideológica que o partido quer. Existe histórico de luta do homem?
Não, não... para o Brasil não foi dessa vez.

Dizem que Dilma é competente, decidida, teimosa ou tudo isso junto.
São qualidades de uma mula. Mas acredito fielmente que ela tenha sido brilhante se comparada com os três chefes bananas que confiaram em seu poder de ação, aliás já evidente nos tempos em que não inaugurava pontes e hidrelétricas, mas assaltos e sequestros. Isso sim, por mérito próprio.

PS: essa mesma mídia baba-ovo comentou com o nome de "furor" o impacto da aparência jovem - ainda que apagadinha - da esposinha do vice-presidente Tremer.
Não vi foror algum. Está na hora da turma de plantão de jornalismo arranjar coisa melhor para fazer.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Novidades

Nosso blog começa o ano de 2011 passando a contar com a ajuda mais permanente de nossos dois prestimosos colaboradores.

Um deles é o velho, chato, reacionário, rabugento, misógino e chauvinista professor Eudascalo (até o nome é chato), que nos brindará mais uma vez com suas longas e intermináveis explicações sobre assuntos sem a menor importância, exceto para ele, que vive sempre no mundo da lua.

Outro é a Cassandra, a dedicada tradutora profissional, histórica falante e militante de esquerda, apoiadora de todas as causas dos oprimidos ao redor do mundo, com exceção (não sei porquê) do Tibet. Desde criança, ela sofre de um inexplicável mal (ou bem) que a impede totalmente de mentir. Mas ultimamente, ela inexplicavelmente começou a sofrer também de afasia.


Obviamente, esses não são seus nomes reais, mas os que os conhecem até sabem de quem se trata. Sejam bem-vindos, amados colaboradores. Os que vão ler, os saúdam.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A esquerda S.A.

Quando o candidato do PSDB se defrontou com uma sturmableitung petista na zona oeste do Rio de Janeiro para mim ficou evidente que José Serra não conhece o país em que vive.

Ele precisa ser melhor assessorado. Há mais de vinte anos, nenhum partido (que não seja o PT) está autorizado a realizar comícios ou ajuntamentos públicos em grandes cidades, sem que atraia alguma turba da esquerda disposta a dissolvê-lo pela força ou com xingamentos. Ele até devia agradecer por terem atingido apenas com um artefato plástico. Quem mandou se meter em terreno onde não é autorizado?

Será que ele não levou nem um pouco a sério que desde o começo da campanha as suas finanças foram bisbilhotadas por um aparelho petista montado dentro da própria Receita Federal? Ou será que acreditou que realmente tudo não passou de um mal-entendido?
Bisbilhotagens desse tipo teriam provocado reações políticas imensas em nações transparentes (lembram-se de Watergate?), mas no Brasil isso não provocou o menor risco. Serra teria que estar preparado.


Esse incidente me fez lembrar 1989 e uma recente "rememoração" de um fato semelhante, quando militantes de esquerda se juntaram para dissolver um comício programado pela candidato Fernando Collor de Mello na cidade de Caxias do Sul, uma semana antes do segundo turno.

Observe que os ex-militantes entrevistados (na época, quase todos do felizmente extinto PCB, e hoje espalhados em outras siglas: PT, PDT, PMDB) se orgulham empavoados da "façanha" - não feita por eles, obviamente, mas por outros - de impedir um comício eleitoral usando de táticas inegavelmente fascistas.
Pior é que a atribuíram a culpa por atiçar a confusão em um militante que nem vivo está mais.

Eu conheci ele. Como também conheci outros, brizolistas ou petistas, que esperam até hoje medalhas pelo grande feito de ter reimplantado no Brasil a prática fascista de dissolver comícios de adversários no país. Eu estava lá, fiz parte da campanha de Lula, mas não da 'confusão' na praça. O ataque foi intencional, planejado, executado. E obra da esquerda; não dos colloridos.
Se o Collor aproveitou politicamente depois - como já tinha feito na outra Caxias, do RJ - é outra história. É ridículo ver o próprio ex-coordenador da campanha Collor na cidade, Mário Vanin, cair na lorota de que houve uma armação para provocar o incidente, porque os 'organizadores' do comício não eram de Caxias do Sul, mas de outra cidade.

Eu vi esses militantes chegarem (não eram muitos, de camisa branca, com a sigla "PTR", um dos partidos da coalizão de nanicos formada por Collor), mas também é verdade que a praça atraiu curiosos e simpatizantes (também de outras cidades) do candidato do PRN que, mesmo sem serem maioria na cidade, tinham pleno direito democrático de comparecerem a um dos raros comícios de Collor no estado.
Se Collor quisesse uma provocação, teria feito uma caminhada até a sede de comitê de sua candidatura, na esquina da Júlio com a Coronel Flores (e que, curiosamente, era ao lado do próprio comitê de Lula), e não um comício de grande porte e com a presença de artistas e de seus principais apoiadores no estado.

A dissolução do comício se deu porque militantes de quatro partidos de esquerda decidiram isso. Todo o material de som foi destruído e o palanque jogado abaixo, em uma ação que não deve nada às S.A. nazistas.
É terror, meu amigos? É.

A realidade é que a baderna contra candidaturas alheias não é acidente na trajetória da esquerda. Está no sangue. Ela não admite opções contrárias. Ela quer monopolizar, uniformizar, eliminar os contrários, filtrar o pensamento da sociedade até restar apenas um pensamento.

José Serra, que foi (ou ainda é) um stalinista, devia reconhecer isso. Agora experimenta o veneno que já foi dele.

O 'ego eleitoral'

Se algum dia tiverem que se decidir entre assistir ao debate dos presidenciáveis na TV Globo ou ao jogo Alecrim x São Raimundo, válido pela série D do campeonato brasileiro, meu conselho é que escolham o futebol.

Pensem comigo...
Qual vai ser o candidato que irá se dispor a ir a um debate público, transmitido para todo o Brasil, se as condições não forem confortavelmente favoráveis?

Até aqui tudo bem. É evidente que nenhum candidato aceitaria ir a um debate contra sua própria tática eleitoral. O problema é que essas condições favoráveis apresentadas aos candidatos resultam em um debate amorfo, que distorce do que é a função do presidente e acaba não respondendo às dúvidas da sociedade.

Vejam bem: que utilidade tem um presidenciável responder a perguntas sobre transporte urbano ou saneamento? Essas podem ser questões consideradas interessantes pelos eleitores simples e - presumivelmente - indecisos convidados para o debate, mas de forma alguma são decisivas para o país.

Essa não é uma eleição para vereador, nem para prefeito.
É uma eleição presidencial e há dezenas de temas que jamais são comentados, e a escolha de pessoas simples para formular as perguntas (o que duvido que seja verdade, pois ficou indisfarçável que estavam lendo uma pauta) afastou o debate de qualquer pergunta séria que poderia ser feita para que a sociedade fizesse uma decisão amparada em respostas concretas.

Por exemplo, ninguém pergunta o que os candidatos fariam para resolver o problema dos portos. Com os portos funcionando mais rapidamente, as exportações aumentariam, haveria maior arrecadação e só aí já existiriam mais recursos para solucionar os outros problemas, como o transporte e o saneamento.

Ninguém pergunta porque os candidatos não ficariam confortáveis em responder o que realmente pensam em fazer: privatização. É claro. Teriam que admitir uma solução "impopular" e isso seria muito arriscado eleitoralmente. Pode ser que o adversário minta, e aí a coisa ficaria realmente preta. Para não correr esse risco, é evidente que todos os temas das perguntas já vieram todos definidos, prontinhos, para que não existisse absolutamente nenhuma surpresa.

As respostas são tão óbvias que são mínimos de malandragem de um ou outro candidato que podem fazer alguma diferença na quantidade de aplausos (que repercutem, no máximo, em mobilização da 'militância'), mas jamais uma meta séria, algo que realmente confronte os seus pontos de vista. Os candidatos posam como atores, o mediador como um diretor de palco, os convidados como figurantes (afinal, não são eles que fazem as réplicas) e a plateia televisiva se deleita com aquele que melhor lhe amansa o 'ego eleitoral'.

No Brasil as verdades se falam com portas fechadas.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Quem manda na economia

         Na condição de partidos que comandam o confronto político em escala nacional desde o pleito de 1994, PT e PSDB disputam junto ao eleitorado o reconhecimento do povo como o melhor gestor da política econômica dos últimos 16 anos.
Para o PT, a condução da economia durante o período que teve Fernando Henrique Cardoso à frente do governo foi má, marcada pelo desmonte do parque industrial privado, venda indiscriminada de estatais e níveis altos de desemprego. Essa situação ‘desastrosa’ teve fim apenas quando Lula chegou à presidência, recuperando a criação de empregos e levando o país ao seleto grupo das nações em acelerado estágio de crescimento.
Para o PSDB, entretanto, os êxitos da política econômica com Lula só foram possíveis devido aos ajustes do período anterior – a começar pela derrota da inflação. Mais que isso: defendem os tucanos que a política econômica desenvolvida pelo PT nada mais é que uma continuidade das linhas mestras da gestão deles no governo.

Os números mostram que ainda estamos em uma fase de ventos favoráveis para a economia. A taxa de crescimento anual é uma das mais altas da era recente, as empresas estão saudáveis, as exportações continuam em alta e o nível de desemprego deixou de ser preocupante há já alguns anos.
Esses índices são refletidos diretamente no aumento de renda das camadas mais pobres e, eleitoralmente, em um ambiente especialmente favorável à manutenção das diretrizes da política econômica presente – seja ela qual for; e venha ela de onde vier. Definitivamente, a mudança de política para a economia simplesmente focou de fora da temática eleitoral de 2010 – até mesmo da terceira via apresentada pela candidata do PV.
A realidade incontestável é que PSDB e PT são concordantes na área da economia, seguindo basicamente os mesmos princípios e objetivos: a) criação de metas de equilíbrio fiscal; b) abertura de setores estatais não-estratégicos para o setor privado; c) aumento da carga tributária; d) expansão gradual do funcionalismo; e) uso da política de câmbio e juros para financiamento externo; f) contenção do aumento dos salários; g) mecanismos de distribuição direta de renda.
         Eventualmente, a temática eleitoral do PT aborda a questão das privatizações aceleradas durante o período de 1995-2001, quando o PSDB esteve à frente do governo. Mas é fato que o PT, em oito anos da era Lula, não só jamais procurou reverter as privatizações efetuadas pelo governo anterior, como deu passos tímidos na mesma direção.

         Então, em que difere a condução econômica de ambos os partidos? Quem efetivamente realizou as transformações estruturais da década de 90 e até que ponto o partido governista manteve ou alterou a política econômica em curso?
         Para termos uma resposta a estas indagações, temos que primeiramente saber a diferença que há entre um partido estar à frente do governo e conduzir, de fato, a política econômica deste mesmo governo. Se atentarmos para as duas situações em que ambos os partidos chegaram ao governo (em 1995 e 2003, respectivamente), veremos que não assumiram de imediato a condução da política econômica, o que veio a acontecer apenas em um segundo momento.
         No caso do PSDB, em 1995, essa mudança era realmente impensável, já que o grupo anterior (dentro do mesmo governo, do qual era continuidade) tivera papel decisivo na solução dos dois mais graves problemas econômicos do país: o plano Real, que acabou com a inflação em 1993; e a renegociação da dívida externa com os bancos privados em 1992-93, livrando um país de um antigo pesadelo que vinha desde a crise do petróleo.
         O principal artífice da primeira solução foi Gustavo Franco (então nomeado para o Banco Central); o do segundo foi Pedro Malan(nomeado para Fazenda). Ambos pertenciam à ala “ortodoxa” da equipe econômica, favorável a um crescimento contido da economia (e, consequentemente, uma geração de empregos abaixo do esperado) e ao acúmulo de reservas cambiais para enfrentar eventuais crises externas – que aconteceram, de fato, a partir de 1997.
         O PSDB não “levou” a gestão da economia. Os membros destacados do partido para a economia ficaram com pastas de menor poder decisório ou até “se deslocaram” para outras áreas – como José Serra, para a pasta da Saúde. Somente a partir de 1999 (com FHC já reeleito) é que o PSDB tentou tomar as rédeas da economia, afastando os “ortodoxos” e colocando em seu lugar os “desenvolvimentistas”, mais afinados com a cúpula e o programa do partido.
         Explica-se: a política até então estava dando certo, mas seus resultados sociais eram modestos. Em seu segundo mandato, FHC pretendia recuperar o tempo perdido com uma guinada na política econômica, liberando o câmbio e reduzindo os juros para incentivar a produção industrial sem a perda da estabilidade monetária. Isso era essencial às pretensões eleitorais do partido.
         Contudo, essa tentativa de FHC esbarrou sucessivamente em percalços tanto políticos e econômicos. O “delfim” do PSDB para a economia, Luís Carlos Mendonça de Barros (ex-presidente  do BNDES) chegou a entrar na quarentena que precedia à sua nomeação como ministro da Fazenda, mas teve contra si denúncias de favorecimento no leilão da Telebrás (quando era ministro das Comunicações, em 1998) – em uma operação depois considerada inteiramente lícita dentro das regras de mercado e continuada em toda era Lula.
         Pairava contra Mendonça de Barros um grampo telefônico (que, segundo dizem os meios políticos, esta sob posse do grupo de ACM) que comprovaria o seu favorecimento no leilão, e por esse motivo, a sua nomeação como ministro foi sempre adiada – o que possibilitou a permanência de Malan na Fazenda até o fim do governo FHC, com respaldo explícito do PFL.

         No Banco Central, a situação foi mais grave. FHC conseguiu afastar Gustavo Franco sem problemas assim que iniciou seu segundo mandato, mas a desvalorização do real frente ao dólar deu início a uma série de evasões monetárias monumentais, colocando o mercado financeiro em pânico e comprometendo a estabilidade da economia.
Pior que isso: seu sucessor, Chico Lopes (demitido após algumas semanas no cargo), tinha acobertado uma operação de salvamento de dois bancos de propriedade de Salvatore Cacciola, o que lhe acarretou a prisão em pleno Congresso Nacional. A solução foi buscar um operador do mercado, Armínio Fraga Neto (sem vínculo com partidos), que conseguiu estancar a sangria do Tesouro e guiar com tranquilidade a transição do câmbio fixo para o volátil.

         O PSDB (que, ao contrário do que muitos pensam) não é o autor do Plano Real, mais uma vez ficou a ver navios – e foi assim até o fim do segundo governo FHC, com a economia caminhando para a estagnação. Os tucanos jamais comandaram a política econômica do Brasil.
         E o PT comandou? O PT chegou como favorito à sucessão presidencial de 2002 com um quadro bastante diferente do que passara nos pleitos de 1994 e 1998. O mercado temia uma nova aventura “desenvolvimentista” (o que parecia acontecer se Serra fosse o eleito) e o partido respondeu positivamente a esse anseio se comprometendo a manter a política econômica em termos “ortodoxos”.
         O resultado após a eleição de Lula foi um banho de água fria em toda a velha equipe de decanos do PT para a economia, como Paulo Nogueira Batista Júnior, Plínio de Arruda Sampaio Júnior ou o próprio Aloísio Mercadante. A pasta da Fazenda foi ocupada por um médico, cuja experiência administrativa (como prefeito de Ribeirão Preto) tinha sido marcada pela privatização dos serviços municipais.
         O Banco Central, mais independente do que em qualquer época, ficou com um ex-deputado do PSDB, Henrique Meirelles, que trazia no currículo o trabalho como diretor de operações do Bank of Boston. Até hoje ninguém sabe quem soprou seu nome no ouvido de Lula...

         À exceção de Guido Mantega (guindado à condição de enfant terrible no Planejamento, a mesma função desempenhada anos antes por José Serra), nenhum dos economistas do PT subiu com Lula a rampa do Planalto. O próprio André Singer contentou-se com a função de porta-voz do presidente, sem qualquer pitaco em área econômica.
         A condução da política econômica com a dupla Palocci-Meirelles foi bastante ortodoxa. Nem se alarmou quando, no primeiro ano da era Lula, o crescimento foi zero – o que nunca acontecera em todo o governo anterior. A meta maior ainda era a busca do equilíbrio fiscal seguindo os mesmos métodos da gestão anterior.
         O único “radical” dentro do governo, Carlos Lessa (um “desenvolvimentista” arcaico, ligado ao PMDB) não suportou e largou o BNDES.
         Palocci resistiu bem até que, por um deslize bobo (mas de implicações perversas), teve que se demitir em pleno escândalo do mensalão. Seu substituto imediato na Fazenda foi Mantega, que de interino acabou se tornando permanente, agora apoiado por Luciano Coutinho (nome ligado ao PSB) no BNDES.
         Mas o embate entre “monetaristas” e “desenvolvimentistas” dentro do governo Lula nem em devaneio se assemelha ao que minou a maior parte da era FHC. Mantega entrou em sintonia com a política econômica em condução e sua conversão à ortodoxia foi assimilada tão suavemente que o PT não esboçou a menor resistência à renúncia tributária (que é heresia dentro do partido) adotada pelo governo para combater os efeitos da crise mundial em 2008 e 2009.
         Dessa forma, a condução “conservadora” da política econômica (que vem se mantendo, a trancos e barrancos, desde 1993) transformou a crise que parecia catastrófica em uma “marolinha” e, ao que parece, não há riscos sérios de ser substituída por uma diretriz menos ortodoxa. Ela tem sucessivos trunfos (derrota da inflação, contenção das crises externas, eixo de crescimento na década, conquista do grau de investimento, etc.) e somente se acontecer um acidente muito grave de percurso, é que suas diretrizes terão que ser mudadas.

         É evidente que há sinais preocupantes. Desde agosto, há sinais de desaquecimento da produção industrial. A valorização cambial exige intervenções ativas do governo no mercado financeiro para puxa o dólar para cima. Para piorar, a tendência de recuperação da economia em termos mundiais foi otimista demais em relação à realidade.
         A dívida pública (moderada em 1999) explodiu na era Lula, e chega a um valor comparável às dos EUA e União Europeia (só que estas com PIB muito maior). Marcando o retorno ao populismo, o governo Lula não reduziu os gastos de custeio da máquina pública e fracassou em sua política de retomada de investimentos em infra-estrutura.

         PT e PSDB são partidos que, quando chegaram ao governo, se puseram à margem da condução da política econômica, preferindo dar continuidade a diretrizes que, muitas vezes, derivam exclusivamente de esquemas improvisados. Eventualmente, tomam para si alguns méritos quando favoráveis e fogem sempre da responsabilidade das grandes decisões.