Do artigo de Luiz Carlos Bresser Pereira, "Dois MalesDois afinal evitados”, que trata das eleições presidenciais de 31 de outubro de 2010:
É verdade que os dois principais candidatos não conseguiram desenvolver um debate que oferecesse alternativas programáticas e ideológicas claras aos eleitores. Por isso, a grande maioria dos analistas os criticou. Creio que se equivocaram. (...)
Os dois males que de fato rondaram as eleições de 31 de outubro foram os males do udenismo moralista e potencialmente golpista e o da americanização do debate político.
Quando setores da sociedade e militantes partidários afirmaram que a candidata eleita representava uma ameaça para a democracia, para a Constituição e para a moralidade pública, estavam retomando uma prática política que caracterizou a UDN (União Democrática Nacional), o partido político moralista e golpista que derrubou Getulio Vargas em 1954.
Não há nada mais antipolítico ou antidemocrático do que esse tipo de argumento e de prática. As três acusações são gravíssimas; se fossem verdadeiras -e seus proponentes sempre acham que são- justificam o golpe de Estado preventivo. Felizmente a sociedade brasileira teve maturidade e rejeitou esse tipo de argumento.
Quanto ao mal da americanização da política, entendo por isso a mistura de religião com política em um país moderno. Os Estados Unidos, que no final da Segunda Guerra Mundial eram o exemplo de democracia para todo mundo, experimentaram desde então decadência política e social que teve como uma de suas características a invasão da política por temas de base religiosa como a condenação do aborto.
De repente um candidato passa a ser amigo de Deus ou do diabo, dependendo de ser ele "a favor da vida" ou não. A separação entre a política e a religião -a secularização da política- foi um grande avanço democrático do século 19. Voltarmos a uni-las, um grande atraso, a volta à intolerância.
A meu ver, o comentário peca por excesso de baba-ovismo.
1. "UDN, o partido político moralista e golpista que derrubou Getulio Vargas em 1954."
A UDN não derrubou Getúlio em 1954. Por mais que tenha sido ruidosa e intensa a campanha diária contra Vargas (mas direito natural de toda oposição em um país democrático), NÃO TERIA ACONTECIDO NADA se Getúlio não se adiantasse e mandasse matar Lacerda (acabou matando outro, e ferindo o jornalista).
Getúlio não foi derrubado. Ele mesmo se derrubou, e o desfecho do suicídio foi apenas uma sequência do mal que ele mesmo criou.
Atualmente, a historiografia avalia que os movimentos de Getúlio na esfera do governo em 1945, quando já corria plenamente a sua sucessão, mostram que ele preparava um golpe para se eternizar no poder. Getúlio é que foi um golpista.
2. "Os Estados Unidos que (...) eram o exemplo de democracia para todo mundo, experimentaram desde então decadência política e social que teve como uma de suas características a invasão da política por temas de base religiosa como a condenação do aborto."
Pois bem, de 1945 o que vimos não foi a condenação do aborto, mas sim a sua aprovação por meio, não de um debate eleitoral ou da decisão dos partidos via Congresso (que não tem incumbência para isso, mas tem mais representatividade), mas de uma decisão da Suprema Corte (Roe x Wade, 1973), seguindo um critério desprovido de considerações éticas sobre o direito à vida.
Onde está a "invasão religiosa"?
É claro que o nível do debate político subiu um pouco com a inclusão de temas morais. Eles representam a inclusão na esfera de decisões políticas de uma parcela do eleitorado que se mantinha calada sobre assuntos caros ao seu ponto de vista. Isso é democracia.
Espera-se que a presidente seja fiel a seus compromissos assumidos em campanha da mesma forma com que se compromete com a defesa da democracia e da liberdade de imprensa.


