Se algum dia tiverem que se decidir entre assistir ao debate dos presidenciáveis na TV Globo ou ao jogo Alecrim x São Raimundo, válido pela série D do campeonato brasileiro, meu conselho é que escolham o futebol.
Pensem comigo...
Qual vai ser o candidato que irá se dispor a ir a um debate público, transmitido para todo o Brasil, se as condições não forem confortavelmente favoráveis?
Até aqui tudo bem. É evidente que nenhum candidato aceitaria ir a um debate contra sua própria tática eleitoral. O problema é que essas condições favoráveis apresentadas aos candidatos resultam em um debate amorfo, que distorce do que é a função do presidente e acaba não respondendo às dúvidas da sociedade.
Vejam bem: que utilidade tem um presidenciável responder a perguntas sobre transporte urbano ou saneamento? Essas podem ser questões consideradas interessantes pelos eleitores simples e - presumivelmente - indecisos convidados para o debate, mas de forma alguma são decisivas para o país.
Essa não é uma eleição para vereador, nem para prefeito.
É uma eleição presidencial e há dezenas de temas que jamais são comentados, e a escolha de pessoas simples para formular as perguntas (o que duvido que seja verdade, pois ficou indisfarçável que estavam lendo uma pauta) afastou o debate de qualquer pergunta séria que poderia ser feita para que a sociedade fizesse uma decisão amparada em respostas concretas.
Por exemplo, ninguém pergunta o que os candidatos fariam para resolver o problema dos portos. Com os portos funcionando mais rapidamente, as exportações aumentariam, haveria maior arrecadação e só aí já existiriam mais recursos para solucionar os outros problemas, como o transporte e o saneamento.
Ninguém pergunta porque os candidatos não ficariam confortáveis em responder o que realmente pensam em fazer: privatização. É claro. Teriam que admitir uma solução "impopular" e isso seria muito arriscado eleitoralmente. Pode ser que o adversário minta, e aí a coisa ficaria realmente preta. Para não correr esse risco, é evidente que todos os temas das perguntas já vieram todos definidos, prontinhos, para que não existisse absolutamente nenhuma surpresa.
As respostas são tão óbvias que são mínimos de malandragem de um ou outro candidato que podem fazer alguma diferença na quantidade de aplausos (que repercutem, no máximo, em mobilização da 'militância'), mas jamais uma meta séria, algo que realmente confronte os seus pontos de vista. Os candidatos posam como atores, o mediador como um diretor de palco, os convidados como figurantes (afinal, não são eles que fazem as réplicas) e a plateia televisiva se deleita com aquele que melhor lhe amansa o 'ego eleitoral'.
No Brasil as verdades se falam com portas fechadas.
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