Por que não devemos acreditar em Aloísio Mercadante?
A promessa feita, em tons enfáticos, pelo sisudo candidato do PT é inteiramente distinta da prática que seu próprio partido têm implantado ou procurado implantar nas prefeituras e governos de outros estados que administra. Ainda na década de 80, os especialistas em educação ligados ao PT já argumentavam que a reprovação era um meio de “exclusão dos mais pobres” e preconizavam o “sistema de ciclos”, adotado pela primeira vez em 1992 pela administração municipal de São Paulo.
Em 1996, esse sistema foi adotado por Porto Alegre, também administrada pelo PT, que logo depois tentou aplicar em todo o estado com a eleição de Olívio Dutra. Porém, diante da resistência na comunidade escolar, acabou recuando para adotar um sistema de aprovação anual automática – em que a reprovação de um aluno era, literalmente, um caso de polícia. Os diretores de escolas corriam o risco de ser afastados de suas funções caso reprovassem um aluno, enquanto pais de alunos irresponsáveis acionavam a Justiça para obter a aprovação de seus filhos.
Esse sistema de aprovação imposto aos gaúchos pelo PT foi simplesmente igual ao que Mercadante agora promete acabar em SP.
Não é possível acreditar em Mercadante porque aprovar os alunos independente do seu rendimento escolar tem sido uma marca registrada do partido em todas as instâncias de governo. Seguindo parecer do Conselho Nacional de Educação, o Ministério da Educação deve em breve aconselhar “fortemente” que todos os estados acabem com a reprovação escolar. O governo tucano de SP limita-se a cumprir a “lição de casa”
Não há diferenças práticas entre a “progressão continuada” (nome polido adotado pelos tucanos para a aprovação automática) e o “sistema de ciclos” (preferido pelo PT). São dois nomes para o mesmo sistema que, servindo-se dos mesmos argumentos (combater a evasão escolar, classificar os alunos por faixa de idade, eliminar diferenças sociais ou raciais, redução de custos), redunda inevitavelmente na aprovação automática. Aliás, só não é aprovado quem tiver faltas demais, ou seja, menos de 75% de
Mas o PT e PSDB não são os pais da “coisa”. O fim da reprovação é uma exigência explícita dos programas internacionais que avaliam a educação no país (e dos quais talvez dependam os financiamentos externos para este fim). Em 1999 a Unesco estabeleceu metas prioritárias para que todos os países signatários eliminem a reprovação ou a reduzam a níveis insignificantes até 2015. Desde que a esquerda chegou ao poder no Brasil em 1994 (seja com Paulo Renato, e agora com Fernando Haddad), os governos paulista e federal se juntam para concretizar essas metas mundiais, sob pena de ser jogado no limbo das nações que desrespeitam o inalienável direito humano dos alunos serem aprovados quase que automaticamente.
Não acredito que Mercadante seja sincero ao prometer acabar com algo que seu partido defende e aplica com unhas e dentes. Ao jogar com as ilusões de pais e mães dos alunos, ele os tenta atrair para o jargão viciado do professorado militante do PT (leia-se Apeoesp) e lucrar politicamente com isso. Contudo, se perder a eleição, impulsionará uma legião de alunos irresponsáveis para cobrar do governo do PSDB uma “aprovação automática” que, para eles, é ainda mais lucrativa.
Premia-se, assim, a quantidade de tempo passado pelos alunos esquentando os bancos escolares (e, por conseguinte, o volume de doutrinação ideológica absorvida) em detrimento do rendimento escolar efetivo, que só pode ser medido por trabalhos que incentivem a participação, a criatividade e a busca pelo conhecimento. Os alunos que se recusam a participar das atividades educacionais continuarão sendo aprovados seja qual for o eleito na disputa para o cargo de governador, para consternação e desânimo dos que ainda insistem em aprender em um sistema de ensino visivelmente degradado.
Mercadante promete acabar com a “aprovação automática” para agradar professores saturados e pais sem esperança, mas esconde que seu partido é principal entusiasta do sistema de ciclos. Em busca de mais votos, ele “vende gato por lebre”.
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